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Guardas-parques: falta de regulamentação é um dos grandes desafios para a profissão

Ao contrário dos Estados Unidos, onde a profissão é valorizada e reconhecida a ponto de ter um ícone infantil (o famoso guarda Belo, do desenho animado Zé Colmeia), no Brasil, o guarda-parque é uma carreira sem glamour, com poucos recursos e sem regulamentação federal. “Porém, esses profissionais são imprescindíveis para a conservação de áreas naturais e merecem ser valorizados por nós brasileiros neste Dia do Trabalho”, destaca a engenheira florestal e gerente de Projetos Ambientais da Fundação Boticário de Proteção à Natureza, Leide Takahashi.

São funções do guarda-parque trabalhar com conscientização e educação ambiental, acompanhar visitantes e pesquisadores, atuar na vigilância, fiscalização e controle. “Eles são agentes de informação da unidade, colaborando com as ações previstas no plano de manejo. São os olhos dos gerentes das unidades de conservação”, complementa o capitão reformado do Batalhão de Polícia Florestal da Polícia Militar do Paraná, Reinaldo Castro.

“Normalmente as pessoas que exercem a função de guarda-parque são próximas à comunidade. É o sujeito que mora e trabalha na região. Muitas vezes, eles não têm estudo e formação técnica, mas conhecem o local”, diz Reinaldo.

Um dos personagens que reflete bem a situação acima é Kabloco, cujo nome de batismo é Eurivaldo Macedo Alves. “Mas nem minha mãe me conhece pelo nome”, diz. Kaboclo é chefe de outros cinco guardas-parques na Reserva Toca Velha, da Fundação Biodiversitas, em Canudos, na Bahia. Trabalha na fiscalização do habitat natural da arara-azul-de-lear, ameaçada de extinção. “Quando começamos a trabalhar eram 61 aves. Hoje são mais de mil”, conta, com orgulho de quem cuida da área como se fosse a sua casa, para evitar a ação dos caçadores e traficantes de animais silvestres. Kaboclo decidiu ser guarda-parque por causa do seu pai, que também exercia a mesma função na época do antigo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), que deu origem ao Ibama. “Desde menino, eu e meu irmão acompanhávamos meu pai e servíamos de guia para os pesquisadores que ira na Toca das Araras”, lembra.

Regulamentação
A profissão de guarda-parque é regulamentada há mais de dez anos em vários países da América Latina, como Uruguai, Venezuela e Argentina. Mas, no Brasil, apenas o estado do Rio Grande do Sul a legalizou.  “Os argentinos têm até uma escola nacional para formar profissionais nessa área”, compara Reinaldo.

Para o capitão, a regulamentação é importante para criar um plano de carreira para esses profissionais e também promover a capacitação, o que possibilitaria que o potencial deles fosse mais bem aproveitado.  Essa também é a opinião do diretor do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, Ítalo Robert Trindade de Carvalho. “A regulamentação da carreira de guarda-parque será fundamental para promover a capacitação desses profissionais que atuam em unidades de conservação”, acredita Ítalo.

Em 2008, o governo federal decretou a criação de um corpo de guarda-parque, indicando que bombeiros e policiais militares ambientais exerçam a função de guarda nas unidades de conservação. Para Reinaldo, esse decreto já é um sinal de evolução, mas ainda é insuficiente. “Seria bom se existissem bombeiros e policiais nas unidades de conservação, mas eles não substituem o guarda-parque”, diz.

Desafios
“Não basta regulamentar a carreira de guarda-parque, será preciso também que o governo contrate mais profissionais”, ressalta Ítalo. Ele conta que o Parque Nacional da Serra da Capivara tem 130 mil hectares e em breve serão incorporados mais 60 mil ha. A flora e a fauna da região são ricas e muitas espécies são visadas para caça, como o tatu e o veado, e para a retirada de madeira, como o angico. Desde 2006, quando assumiu a direção do parque, Ítalo conseguiu fortalecer o trabalho de fiscalização e diminuir drasticamente o número de invasões. Para fazer esse trabalho, o diretor conta com 28 funcionários terceirizados e, segundo ele, o ideal seriam 80.

A falta de profissionais não se restringe apenas ao Parque Nacional da Serra da Capivara. “O Brasil dispõe de 300 unidades de conservação federais gerenciadas pelo Instituto Chico Mendes e os recursos humanos disponíveis são insuficientes para protegê-las e manejá-las adequadamente”, afirma a gerente de Projetos Ambientais da Fundação Boticário.

No Brasil, há muitos outros desafios para que os guardas-parques cumpram sua função – a de preservar os ecossistemas naturais. Exploração, caça predatória, moradias irregulares, garimpo e tráfico de animais são alguns deles. Os profissionais que se dedicam a essas áreas conhecem essas dificuldades e algumas outras, como o isolamento, ameaças e falta de materiais. “Os profissionais dessas áreas, por estarem em quantidade insuficiente, têm trabalho redobrado e têm que se dedicar muito”, lembra Leide.

Informações para imprensa
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Milena Miziara – milena@nqm.com.br
Mônica Santanna – monicas@nqm.com.br

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